Jussara Lemos Giani PDF  | Imprimir |  E-mail

   Atual Coordenadora da Moradia e Cidadania no Distrito Federal, Jussara Lemos Giani, 45 anos, bancária iniciou sua trajetória com causa social ainda adolescente se engajando no trabalho voluntário “o melhor retorno do voluntariado é o sentimento de poder servir e descobrirmos que nossa capacidade vai muito além do que pensamos e, quando recebemos um olhar de gratidão... é impagável! É isso que importa e o que faz valer a pena!” disse ela.

Leia a entrevista que o Portal da Moradia e Cidadania fez a ela.

Moradia e Cidadania: Há quanto tempo trabalha com a causa social? Relate um pouco da sua trajetória na causa social.
Jussara:
Eu cresci acostumada às práticas de causas sociais com meus pais, em Ibiá/MG, onde nasci e, já adolescente, me engajei no trabalho voluntário, ajudando em trabalhos com adolescentes de rua e grupos de artesanatos com idosos.

De família grande, com oito filhos, sendo seis irmãs e, sempre fomos incentivados a sermos auto suficientes e evitarmos gastos desnecessários e supérfluos, vez que éramos de baixo poder aquisitivo e, assim, quando minha irmã mais velha ia ao salão, ficava atenta observando como eram feitos os cortes, as permanentes, luzes, manicura e pedicuro.

Então ela passava a cortar e tratar nossos cabelos em casa mesmo. Na medida em que já ganhávamos algum trocado, ajudando minha mãe que costurava, sendo exímia costureira de calças femininas por muitos anos, nós também íamos ao salão e observávamos cada detalhe.

Em casa também, aprendemos um pouco de tudo, vez que ajudávamos nos detalhes da costura e, minha mãe é quem fazia todas as nossas roupas, no início eram todas do mesmo tecido, pois meu pai comprava peças fechadas, pois ficava mais em conta.

Minha mãe nunca teve tempo e paciência para nos ensinar corte e costura e, inclusive a fazer comida, pois meu pai era exigente e só ela preparava a comida todos os dias - eu aprendi a fazer bolo, café, cuidar da casa, vez que eram as tarefas mais simples.

Em Ibiá, tinha o colégio São José, que era de freiras e funcionou até por volta de 1975 creio, pois lembro-me que só estudei lá até a 4ª série e assim, as minhas irmãs mais velhas puderam aproveitar melhor, pois ofereciam aulas de artes com bordados diversos, crochê, flores de tecido, desenhos e pintura em tela, quando minhas irmãs mais velhas souberam aproveitar bastante.

Aos 10 anos, aprendi a fazer os pontos básicos de tricô na Vila Vicentina, que era um lar de idosos e ensinei pra minha irmã mais velha que acabou se gostando mais que eu, chegando a fazer muitos casacos de lã pra família toda.

Nessa época eu desenvolvi pouco essa arte e, quando entrei no 2º grau, para não perder tempo, fiz os dois cursos que a única escola da cidade oferecia: técnico em contabilidade e magistério, me formando em 1983.

Ao vir pra Brasília, 1985, fomos morar quatro irmãos juntos e ninguém sabia cozinhar, como eu gostava, aprendi rápido. Em 1986 fui trabalhar no CNEC – Ceilândia, como alfabetizadora da Fundação Educacional e, por ser um Centro Comunitário, oferecia várias oficinas às famílias das crianças e aprendi a fazer flores, caixas, arte em papel maché, trabalhar com EVA e muitas outras artes com as demais professoras.

Quando entrei na CAIXA, comprei um kit bordado em papel vegetal com apostila e, como conheci meu marido no atendimento de abertura de contas, um ano depois estava eu fazendo meus próprios convites de casamento.

Uma das minhas primeiras aquisições após o casamento foi uma máquina de costura SINGER, na qual fiz muitos vestidinhos clássicos, utilizando os moldes da revista Manequim Criança. Quando da licença maternidade, aprendi com uma vizinha a confecção de caixas e bombons artesanais e, daí para os ovos de páscoa, foi tranqüilo, são ótimos para se presentear, pois é algo que agrada a todos, indistintamente.

Em 2008, participei de trabalho de voluntariado na Casa de Apoio da ABRACE, crianças portadoras de Câncer, no Guará II, que ocorria no último sábado de cada mês, quando oferecíamos lanche reforçado às crianças e levávamos uma palavra amiga e reconfortante às mães, ao mesmo tempo em que oferecíamos trabalhos artesanais fáceis para sua ocupação diária.

Há algum tempo, tivemos o projeto Trabalho com Arte na GEMAR, quando ensinamos muitas colegas de trabalho a arte de tricotar echarpes e fazer flores com viés colorido. No final do ano passado, quando da formatura da minha filha no 2º grau, eu mesma fiz questão de fazer os vestidos de nós todas, numa audácia sem fim! Fiquei super feliz com os resultados e, de quebra, a economia foi considerável! 

Sempre disponível e disposta quando surgem oportunidades de voluntariado, sempre procurei participar das comissões CIPA e do Comitê ODM/VIPFI – Objetivos do Milênio e, quando a SURSE lançou o projeto Coleta Seletiva na CAIXA, aderimos de imediato, implantando as Ilhas de Coleta Seletiva na SUMAR, sendo modelo para várias outras áreas.

Procuro instar os colegas CAIXA para também participarem de ações voluntárias, por meio de contribuição financeira ou doação de livros e roupas usadas, formas estas bem simples e fáceis, no intuito de engajamento e absorção da prática da doação e da contribuição ao próximo.

Nascemos para servir uns aos outros e é isto que nos faz crescer interiormente, nos proporcionando um sentimento de utilidade, quando constatamos que não somente estamos passando pela vida, mas aprendendo e ensinando sempre!

Atualmente, assumi a Coordenação da ONG Moradia e Cidadania no DF e este tem sido meu grande desafio, pois só ninguém faz nada – é preciso uma equipe de voluntários que se disponham ao trabalho, que se disponham a doar um pouco do seu tempo, o que hoje é complicado.

Mas a minha fé é grande e creio que teremos uma grande equipe e, em breve, muitos projetos em andamento, com o alcance de muitas famílias sendo beneficiados pelos nossos projetos de ensinar a auto sustentabilidade, pois nosso foco é a Educação e a Geração de Renda.

Moradia e Cidadania: O que te motiva a continuar com o trabalho social?
Jussara:
A carência dos mais necessitados. É muito triste a realidade de pessoas com grande potencial, mas que não tiveram oportunidades e ficaram sem perspectivas e desiludidas, devido sua ignorância quanto à utilização dos recursos do próprio meio em que vivem.

Moradia e Cidadania:Como você, voluntária, avalia o trabalho da Moradia e Cidadania?
Jussara:
É um trabalho muito nobre e de muita responsabilidade. Geralmente lidamos com gente frustrada pelos infortúnios da vida, embora tenham muita fé e expectativas de melhorias. E muita responsabilidade porque lidamos com recursos alheios, quando precisamos administrá-lo com consciência, transparência e ética e, principalmente porque lidamos com a fragilidade e o sofrimento dos beneficiados, temos que nos resguardar da filantropia, mantendo o foco sempre.

Moradia e Cidadania: Há quanto tempo é coordenador estadual?
Jussara:
Sou a coordenadora estadual mais fresca, acabei de assumir.

Moradia e Cidadania: Na sua opinião, falta alguma coisa para que o trabalho que você desenvolve na Moradia e Cidadania seja ainda melhor?
Jussara:
Sinto que falta mais voluntários compromissados, mas tenho fé que é questão de tempo, vez que o mundo em geral e no sentido literal, está acordando para a responsabilidade social.

Moradia e Cidadania: Como que começaram as suas atividades como voluntária?
Jussara:
Cheguei na Matriz da Caixa Econômica Federal em 2005 e no final do ano fizemos uma bela campanha para melhorar o natal de cerca de 200 crianças, por meio das cartas disponibilizadas pelos CORREIOS. Foi quando descobri que os economiários são solidários e, depois, entrei para o Comitê ODM / VIPFI, em 2008.

Moradia e Cidadania: O que uma pessoa precisa para ser voluntária?
Jussara:
Boa vontade e disposição - esse é o primeiro passo.

Moradia e Cidadania: Qual a importância de desenvolver projetos sociais em comunidades de baixa renda?
Jussara:
As comunidades de baixa renda passam por fome e miséria, mas sempre tem componentes com potencial para melhorar sua educação e sua geração de renda. O que lhes falta é alguém se fazer presente para o direcionamento correto, para mostrar-lhes que as fronteiras vão mais além e a vida poder ser mais bem aproveitada.

Moradia e Cidadania: O que mudou na sua vida e na vida das pessoas de baixa renda que são atendidas? Qual é a coisa de maior valor que você aprendeu com o trabalho voluntário?
Jussara:
O melhor retorno do voluntariado é o sentimento de poder servir e descobrirmos que nossa capacidade vai muito além do que pensamos e, quando recebemos um olhar de gratidão... é impagável! É isso que importa e o que faz valer a pena!

Moradia e Cidadania: Qual é a mensagem que você gostaria de transmitir às pessoas que têm vontade de ajudar as pessoas de baixa renda?
Jussara:
Ninguém é melhor e nem pior que ninguém, a diferença está no desenvolvimento somente, portanto, assim como viemos ao mundo, morreremos; sem levar nada, logo, nos resta procurar fazer aqui a diferença: ajudar a quem precisa! Aquele que se dispõe a ajudar, na verdade, é o mais beneficiado! Afinal, as pessoas esquecem o que você diz, esquecem o que você faz, mas não esquecem como você faz com que se sintam.

Moradia e Cidadania: Quais seus projetos para o futuro?
Jussara:
O mandato para Coordenação Estadual da ONG é de quatro anos e, após, planejo me manter voluntária, talvez como parte do Conselho Fiscal. Espero ter os recursos para uma micro empresa de prestação de serviços fornecendo uniformes ou trabalhar com promoção de eventos diversos, com os profissionais formados por iniciativa de projetos da ONG, quem sabe!

Moradia e Cidadania: Para você, qual a importância da inserção dos empregados na CAIXA nas ações da ONG?
Jussara:
Como a ONG é fruto dos sonhos e trabalho dos empregados CAIXA desde 1993, quando foi formado o Comitê da Ação da Cidadania dos Empregados CAIXA que transformou-se, tempos depois, em ONG Moradia e Cidadania, é fundamental que os empregados de hoje se conscientizem da manutenção deste importante canal para cidadania, educação e geração de renda às comunidades menos favorecidas. Vejo isso com uma grande oportunidade de engajamento e bem estar social para todos os empregados CAIXA.

Moradia e Cidadania: Relembre um fato marcante na sua trajetória social e o que mudou em sua vida após o acontecimento.
Jussara:
Não há um fato marcante, mas as experiências adquiridas com o trabalho voluntário nos fez ter a consciência do quanto somos favorecidos, vez que temos o necessário para uma vida digna e decente e, principalmente, quando constatamos que é preciso muito pouco para a viabilização de dignidade e decência àqueles que não tiveram esse privilégio.

Moradia e Cidadania: Caso tenha alguma questão que não foi perguntada e que, na sua opinião, é importante por favor relate abaixo.
Jussara:
O que falta no voluntário, geralmente e infelizmente, é o compromisso e o engajamento com seus propósitos e projetos, quando o voluntário deve se apresentar sempre flexível, perseverante e persistente, vez que as tarefas e objetivos não são nada fáceis de alcançar, porém, quando se quer, se consegue!

Última atualização em Qua, 08 de Junho de 2011 15:30